Jean Dominique Bauby é o editor da revista de moda mais charmosa do mundo. É heterossexual e dorme com beldades tão expressivas quanto as que estampam a capa de sua Elle. É ateu, cínico, niilista; talvez bastasse apenas dizer francês. Pois aos 43 anos de sua lúbrica e libidinosa vida, Jean-Do sofre um acidente vascular cerebral. Toda a beleza, a opulência, os estúdios pomposos, o sexo abundante, os carros, a estrada, tudo é substituído por um rosto deformado pelo eterno esgar adoentado, a impossibilidade da fala, de qualquer movimento corporal e da perda de metade da visão. Restaria a Jean-Do a rotina de um hospital, as sessões de fisioterapia, a piedade de parentes e amigos.
Mas não estamos tratando aqui, caro leitor, de mais um filme estadunidense que projeta na superação de um homem em belicosa relação com o próprio corpo a redenção de seu povo; tampouco dissertando sobre uma película encharcada da amargura que o tema sugere – armadilha que certamente seduziria o talentoso cinema argentino. Trata-se, isso sim, de O Escafandro e a Borboleta, filme realizado pela escola que melhor consegue aproximar a sétima arte da poesia, a francesa. Tanto que transforma a história de um homem tetraplégico, mudo, cego de um olho e de aparência deformada, num delicado inventário da beleza.
Limitado por tudo o que já foi explicado, Jean-Do recorre aos dois únicos terrenos que a fatalidade recente não lhe negou: a memória e a imaginação. Seja nas lembranças que remontam momentos com o pai, como quando após barbear seu rosto, recebe o maior elogio que todos podemos receber – o orgulho incondicional de quem nos formou –, seja num passeio com a jovem e bela amante à inóspita – para ele – cidade de Lourdes, reduto religioso, o cuidado em rememorar cada palavra trocada e a sutil culpa por não ter sido mais ostensivo num carinho ou ter sido menos atencioso do que deveria, constroem aos poucos o solitário caminho de um homem enclausurado em seu próprio corpo.
A forma encontrada para externar o turbilhão de sentimentos aprisionados em sua condição é cumprir o contrato firmado antes do acidente com uma editora, mas, ao contrário do romance combinado, publicar um relato sobre os dias da nova vida, como um desabafo brando, nunca resignado, amealhando arrependimentos de um intra-exilado, impedido de toda e qualquer autonomia física. Por meio de um intrincado alfabeto adaptado às suas limitações, Jean-Do dita o livro com o olho esquerdo, com a ajuda de uma empregada da editora encarregada de repetir letra por letra do alfabeto e aguardar a escolhida nas piscadelas de Jean-Do. Imagem que só consegue se tornar verossímil na tela, impossível de reproduzir num texto.
Caso o prestimoso leitor esteja à procura da famigerada redenção inesperada e solução fácil para esse tipo de história, vá à locadora e pegue Uma lição de amor, vai valer pela atuação de Sean Penn. Caso esteja num daqueles dias mais cinzas, quando tudo e todos parecem e são insuportáveis e a única alternativa aparente é arrendar um terreno em Marte, a melhor escolha é Mar adentro (Baita filme!), com o Marlon Brando subdesenvolvido Javier Barden. Agora, se acaso procura poesia em estado bruto, se esquadrinha as prateleiras mais obscuras das locadoras em busca daqueles filmes que conseguem aproximar o cinema – por excelência uma arte menor que as outras seis – do pedestal olímpico onde residem suas irmãs mais velhas, aí sim, meu caro, O Escafandro e a Borboleta merece a tua conferência.
Extensão do domínio da arte:
Ficha técnica: O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papilon, 2007), Miramax Filmes / Europa Filmes
Diretor: Julien Schnabel
Elenco: Mathieu Amalric , Emmanuelle Seigner , Marie-Josée Croze , Anne Consigny , Patrick Chesnais.
* Título raptado do livro homônimo do escritor Altair Martins

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