O libelo contra o pragmatismo

Poderia dizer que O jogo da amarelinha, obra maior de Julio Cortázar, conta a história do argentino Horacio Oliveira, homem com cerca de quarenta anos, radicado há alguns deles em Paris. Poderia dizer que Horacio é amante de mate, literatura e de uma uruguaia de apelido Maga, de nome Lucía, mãe prematura de Rocamadour, criança com ar misterioso e controverso, ora inimigo ignoto de Oliveira, ora a ponte entre ele e Maga. Poderia ainda dizer que as ruas cor de outono de Paris são o habitat de dois nascidos em terra platina, que nas margens do Sena eles se afastam e se atraem mutuamente. Poderia dizer, por fim, que Horacio, caçador daquilo que intriga a todos os homens de olhar e coração atento, dos acontecimentos assustadores aos quais os homens de coração e olhar distraído atribuem à categoria ordinária das coincidências, integra um grupo de amantes das artes e do álcool, autodenominado Clube da Serpente, que, reunidos em um apartamento encharcado de penumbra, desmembram clássicos do jazz, escolas e movimentos artísticos e, sobretudo, a obra antropofágica de um escritor chamado Morelli. Mas não o farei. Seria recair em vícios alardeados pelos resenhistas de penas já cansadas. Entre os quais, ainda não me incluo.

Ocorre que O jogo da amarelinha só pode ser retratado por metáforas, uma espécie de poesia explicativa – caso ambas não sejam sinônimos; e peço perdão se soo repetitivo.

Assim sendo:

O jogo da amarelinha é uma janela. Mas somente aquela janela que pode transformar-se em porta. Basta que se ampare uma escada da base da abertura até a calçada. Concomitantemente, uma tábua da largura da janela completa o triângulo começado pela escada, do lado de dentro. Não faz mais sentido que as senhoras desocupadas ocupem seus dias com os cotovelos pousados lá e sustentando o peso da cabeça vazia. A natureza engessada da janela se ausenta. A natureza transitória da porta assume seu posto.

Ou não. Ou O jogo da amarelinha é um quadrado. Figura encerrada em si mesma. Figura quadrada. Símbolo de qualquer ação pragmática. Mas não. Há que ser um quadrado plural, heterogêneo. Quadrado que pode ser parte integrante de um cubo infinito, como se o desenho dele fosse materializado e postado na frente de um espelho, e o próprio quadrado fosse um espelho, bem em frente, e o reflexo calasse as vozes uníssonas, e quando elas voltassem a falar, cantariam cada qual em sua verdadeira língua. E o reflexo mostrasse, por fim, a quantidade inexorável de cubos enjaulados dentro de um incauto e inofensivo quadrado.

Ou nada disso. Ou O jogo da amarelinha é a solidão. Essa quase palpável que nos persegue nos momentos anteriores ao sono e que muitos tentam calar com as vozes de mentira da televisão. A solidão também mentirosa, porque acompanhada de milhões de outras solidões, bastaria atravessar a rua ou um corredor ou um lado da cama para compartilhá-la com o outro. E talvez esse fosse o único modo de tornar o abismo que se impõe diante de todos nós um pouco menor ou mais alentador. E ainda assim ela resistiria, a construir novos muros, matreira, persistente, até que se conclua que a única maneira de realmente agirmos com autonomia sobre ela, é promovendo-a, afastando-nos propositalmente, estendendo essas divergências a um ponto insustentável, e nos encontremos do outro lado, reconciliados – ainda que solitários.

Claro que metáforas, nesses casos, sempre soam evasivas. Portanto, admitindo toda e qualquer incapacidade de definir para o leitor O jogo da amarelinha, lanço mão de uma última cartada: peço ao próprio Cortázar que se explique:

“ O pior não é tanto estarmos sós, pois isso já é conhecido e não tem solução. Estar só, é, definitivamente, estar só dentro de um certo plano, no qual outras solidões poderiam comunicar-se conosco se a coisa fosse possível. Todavia, qualquer conflito, um acidente de rua ou uma declaração de guerra, provoca o brutal cruzamento de planos diferentes, e um homem, que talvez seja uma eminência do sânscrito ou da física quântica, se converte num pépère para o enfermeiro que o assiste num acidente. Egdar Poe metido numa ambulância, Verlaine nas mãos de um médico qualquer, Nerval e Artaud diante dos psiquiatras. Que podia saber de Keats o galeno italiano que o sangrava e o matava de fome? Se os homens como esse guardam o silêncio, como é provável, os outros triunfam cegamente, sem qualquer má intenção, é claro, sem saber que aquele operado, aquele tuberculoso, aquele acidentado despido sobre a cama se encontra duplamente só, rodeado por seres que se movem como por trás de um vidro, num outro tempo (…) Quem é que tinha perfeita consciência de si, da solidão absoluta que significa nem sequer contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou, ainda, no matrimônio para estar, pelo menos, só entre os demais? Assim, paradoxalmente, o cúmulo da solidão conduzia ao cúmulo do gregarismo, à grande solidão das companhias alheias, ao homem só na sala de espelhos e dos ecos”.

 

Extensão do domínio da arte 

Sobre o livro e sobre o autor 

2 respostas para O libelo contra o pragmatismo

  1. Continua meio boiola, mas como sempre, excelente.

  2. Muito bacana o texto… “Essa quase palpável que nos persegue nos momentos anteriores ao sono e que muitos tentam calar com as vozes de mentira da televisão”.

    Abraço.

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