E se tu largasse tudo? E se juntasse meia-dúzia de roupas numa mochila, calçasse um tênis surrado e saísse por aí sem dinheiro algum no bolso e muitos livros na cabeça? E se a tua família não fosse nada além de integrantes de um grupo maior, e a única ligação concreta que tu tivesse com ela fosse a ancestral e irracional relação de companheiros de espécie? E se tu nunca mais desse notícia, se fosse ver o mundo a pé? Calma. Não precisa fazer isso. Alguém já fez por ti. O nome dele: Christopher. Nacionalidade: estadunidense. Idade: 22 anos.
Tudo aconteceu entre 1992 e 1994. Foi registrado pelo jornalista Jon Krakauer em livro, anos depois. E acabou virando filme em 2008. O ator, diretor e bom moço Sean Penn filmou Into the Wild (Aqui no Brasil, Na natureza selvagem): a história do cara que, depois de cumprir os rituais obrigatórios de doutrinação na escola e faculdade, resolveu desgarrar-se, colocar em prática o que lia em Thoureau, London e Tolstoi, substituir a rebeldia inerte daqueles que envelhecem desdenhando dos valores cultivados pelos pais mas reproduzidos por eles mesmos com o passar dos anos – o nascimento dos filhos, o enrijecer da pele e do coração – pelo maior ato de subversão possível em nossos dias: ignorar nossa tendência ao gregário, aderir aos poucos e chamados de loucos nômades e, por último, embrenhar-se no Alasca, terra árida em costumes, conforto ou resquícios antropológicos, terra rica em gelo, vento e montanhas.
A história é muito bem conduzida pelo ator Emile Hirsch, que interpreta um convincente e obstinado Chris, cuja disciplina chega aos píncaros quando rejeita a virgindade fresca de uma menina de 16 anos – vivida pela ainda bela desconhecida Kristen Stewart pré-Crepúsculo. Mas esse ato não causa tanta surpresa se alojado no contexto de postura de Alexander Supertramp – sim, ele também se rebatizou nessa reinvenção pessoal. Cada relação estabelecida por ele na caminhada de exploração pelos Estados Unidos é sustentada por valores morais e éticos inversamente proporcionais à escassa opulência e riqueza que os rodeia.
É assim quando cruza com o casal de ripongas em crise conjugal, ou quando ancora a própria jornada numa obscura plantação de trigo na Dakota do Sul, transformando-se em empregado do oráculo beberrão e sedutor Wayne, vivido por Vince Vaughn: cada uma destas amizades expurgava na alimentação frugal e nas vestimentas e alcovas sem mordomias toda a hipocrisia anticéptica que suportara durante mais de vinte anos, seja no casamento resfolegante e implosivo dos pais, seja na monopolização brutal do conhecimento da faculdade de professores abundantes de pedantismo e áridos em sabedoria.
A sabedoria, Supertramp prova na estrada, a caminho do oeste. Dirigindo sem destino, primeiro, quando ainda de carro; trotando sem destino, depois, quando do abandono do veículo. É claro que uma incursão externa e interna tão rica como essa gerou frases antológicas grafadas todas no diário do jovem andarilho, cuja experiência de Sean Penn soube casar com imagens da mesma dimensão. Como quando Alex trata de auxiliar nas pazes do casal de hippies Jan e Rainey. O banho de mar é acompanhado pela voz do protagonista, que ensina: “sei como é importante na vida, não necessariamente ser forte, mas se sentir forte. Se avaliar ao menos uma vez, se encontrar ao menos uma vez na mais antiga das condições humanas, encarando a cega e surda pedra solitária sem nada para ajudá-lo, além das suas mãos e da sua própria cabeça”.
Ou quando enfrenta o trauma de infância que inoculou na mente ainda muito jovem o pavor de rios, mares e afins, forjando em sua descida debutante de caiaque por uma monumental corredeira a mais antiga luta que o homem trava desde sempre: o interminável embate com seu meio. A cena é sonorizada com um off digno dos mais clássicos aforismos: “Se admitirmos que a vida humana pode ser regida pela lógica, a possibilidade de vida é destruída”.
E se tu largasse tudo? E se juntasse meia-dúzia de roupas numa mochila, calçasse um tênis surrado e saísse por aí sem dinheiro algum no bolso e muitos livros na cabeça? E se a tua família não fosse nada além de integrantes de um grupo maior, e a única ligação concreta que tu tivesse com ela fosse a ancestral e irracional relação de companheiros de espécie? E se tu nunca mais desse notícia, se fosse ver o mundo a pé? Tá, eu sei que tu não vai fazer isso. E nem eu. Mas Christopher McCandess fez, provou que ainda é possível nos aproximarmos dessa herança atávica e fundamental, onde o instinto animal encontra harmonia com a razão tão distorcida em nossos dias pragmáticos – ainda que, claro, tenha arcado com um preço muito maior do que o imaginado no início de sua jornada.
Extensão do domínio da arte:
Ficha técnica: Na Natureza Selvagem(Into the Wild, 2007),
Paramount Vantage / Art Linson Productions / River Road Films
Diretor: Sean Penn
Elenco: :Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, William Hurt, Jena Malone, Vince Vaughn





